Queridos leitores,
Hoje a conversa é sobre TDAH.
E eu já quero começar assim:
Você conhece alguém com TDAH que vive reclamando da etiqueta da blusa?
Que se irrita demais com barulho de talher?
Que parece ficar exausta em ambientes muito iluminados ou cheios?
Que às vezes sai mais cedo dizendo que está “cansada”, mas parece algo além disso?
Ou talvez você mesma tenha diagnóstico de TDAH e já tenha se perguntado:
“Por que certas coisas me afetam tanto?”
Antes de qualquer coisa: nem todo incômodo sensorial é TDAH. Todo cérebro pode se sobrecarregar
(não vai sair dizendo por aí que viu um post no meu perfil e se identifica como TDAH, que isso não existe. Me chama e a gente faz uma avaliação bonitinha... Nada de diagnóstico pela internet hein!)
NO ENTANTO, quando falamos de TDAH, essa história ganha uma camada a mais.
Então bora fofocar cientificamente e parar de lenga lenga que foi por isso que vocês vieram aqui.
O filtro que não filtra direito!
Bora tirar a poeira desse cérebro aí, que lá vem EVIDÊNCIA CIENTÍFICA:
Vocês têm noção de que teve gente (a galera nerd que vocês já ouviram falar por aqui) que parou pra juntar dados de mais de 5 mil pessoas, em 30 estudos diferentes, só pra entender se essa história de sensibilidade no TDAH era impressão ou padrão mesmo?
Pois foi exatamente isso que uma meta-análise publicada no Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry fez. Eles cruzaram tudo, organizaram as estatísticas e chegaram num ponto bem claro: em média, pessoas com TDAH apresentam diferenças importantes na forma como processam estímulos do ambiente.
Não é “coisa da sua cabeça”.
É literalmente coisa… do seu cérebro.
O sistema que deveria decidir “isso é relevante” e “isso dá pra ignorar” pode funcionar de forma diferente em um cérebrozinho neurodivergente.
E isso aparece de quatro formas principais:
- mais reatividade e sensibilidade a estímulos do que outras pessoas;
- tendência maior a evitar certos ambientes ou sensações;
- chance maior de não perceber algum estímulo sensorial de primeira;
- maior tendência de procurar mais estímulos.
Percebe a ironia aqui? VOCÊS PERCEBEMMMM?
Dá para ser sensível demais (em algumas ocasiões)… e ao mesmo tempo “não perceber nada” (em outras ocasiões).
O cérebro adora uma contradição, e se ele é TDAH então, aí já era.
E vamos parar com essa narrativa de “é só aprender a lidar” - aqui fala a defensora dos neurodivergentes!
Quando o ambiente chega te sufocando com luz forte, barulho, gente falando ao mesmo tempo, notificações pipocando... o cérebro TDAH paga a conta, e geralmente, ela é bem salgada.
E não fica achando que energia cognitiva é infinita, porque ela não é não...
É limitado meu anjo! E é por isso que o desconforto é grande.
Mas tá, continuando com a parte científica da coisa - porque aqui só existe fofoca baseada em evidência
Um estudo publicado em 2025 na Cerebral Cortex tentou responder uma pergunta simples:
Existe relação entre ser mais sensível aos estímulos do ambiente e ter mais traços de desatenção?
Eles avaliaram o nível de sensibilidade das pessoas, mediram traços de atenção deficitária e ainda analisaram o cérebro com fMRI em repouso (não precisa saber exatamente o que é isso, mas é tipo um exame de imagem do cérebro).
Sabe o que apareceu?
Pessoas que pontuavam mais alto em sensibilidade sensorial também pareciam apresentar mais traços de desatenção.
E no cérebro, apareceu algo interessante: maior comunicação entre duas regiões específicas: o hipocampo (envolvido em memória e contexto) e o lobo parietal inferior (importante para direcionar atenção).
Agora que vocês exerceram um pouquinho do cérebro com as palavras difíceis, deixa eu mastigar:
Se a área ligada a memória e contexto (hipocampo) está “conversando” de forma mais intensa com a área que regula sua atenção, isso pode fazer com que qualquer distração que aconteça no seu ambiente ganhe força demais.
Resultado prático?
Mais distração.
Mais reatividade.
Mais sensação de estar sobrecarregada.
Importante: isso é correlação, não causa.
O estudo não está dizendo que encontrou “a origem do TDAH”, calma aí também. Está mostrando que existe uma relação mensurável entre sensibilidade ao ambiente, atenção e padrões de conectividade cerebral.
Em termos bem diretos:
Alguns cérebros simplesmente dão mais importância ao que está acontecendo ao redor.
E aparentemente o cérebro TDAH é um deles.
Diretrizes clínicas nem sempre enfatizam avaliação sensorial no TDAH. E a própria meta-análise que foi feita sugere que isso deveria ser explorado com mais consistência. Ou seja, talvez você tenha passado anos achando que era “desorganizada”, “difícil”, “sem foco”, quando parte do problema era simplesmente excesso de estímulo.
E isso muda tudo!
Brendha, a solução então é me mudar pra uma caverna e ficar sem estímulo?
Às vezes vocês são tão dramáticos né, mas escuta aqui que vou te ajudar...
Um estudo bem recente deixou mastigadinho pra gente algumas intervenções sensoriais e dividiu elas em três categorias principais: técnicas diretas, treino de cuidadores e modificações ambientais.
Eles perceberam que algumas estratégias pareciam funcionar mais, outras menos, então vou trazer o que pode funcionar:
- Não é sobre adotar uma estratégia que eu vi no tiktok pra TDAH e que tá no hype do momento pra aliviar minha sensibilidade, o negócio é: testar, observar e ajustar;
- A estratégia que você adotar, precisa fazer sentido com a dificuldade enfrentada: por exemplo, uma estratégia auditiva tende a ajudar mais quando o obstáculo é auditivo, do que ficar apertando uma bolinha anti-stress (recurso tátil) achando que resolve todas as situações de sobrecarga sensorial;
- Atividade física, principalmente as que exigem uso de cognição, pode ser um ótimo aliado para diminuir sobrecarga e exercitar a tolerância a estímulos (então faça o favor de se mexer).
Mas o segredo principal aqui é: PERSONALIZAÇÃO, então, aquilo que funciona pra VOCÊ!
O que serve pra um não serve pro outro meu amô, lembra disso! Então se precisar pedir pra diminuir o volume do som na corrida do uber, peça. Se precisar sair um pouco mais cedo de encontros sociais, saia. Tente flexibilizar o que for possível, mas também, valide suas necessidades.
Minha dica é: seja capaz de compreender os momentos em que o seu cérebro está trabalhando em alta voltagem e nesses casos, aprenda a diminuir o ritmo e preservar sua cognição. E saiba distinguir quando você realmente não gosta e se incomoda com algo, e nesse caso, respeite seu limite e seja feliz...
Por hoje é só, um beijo no coração de vocês!
Entre um DOI e outro,
Psi. Brendha Wachholz.
Seu portal de escândalos científicos.
REFERÊNCIAS:
Liyu Zhou, Ting Xu, Tingyong Feng, The hippocampus–IPL connectivity links to ADHD traits through sensory processing sensitivity, Cerebral Cortex, Volume 35, Issue 3, March 2025, bhaf063, https://doi.org/10.1093/cercor/bhaf063
Lucie Jurek, Arnaud Duchier, Christophe Gauld, Léonie Hénault, Caroline Giroudon, Pierre Fourneret, Samuele Cortese, Mikail Nourredine, Sensory Processing in Individuals With Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder Compared With Control Populations: A Systematic Review and Meta-Analysis, Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry,
Volume 64, Issue 10, 2025, Pages 1132-1147, ISSN 0890-8567, https://doi.org/10.1016/j.jaac.2025.02.019
Oh S, Jang JS, Jeon AR, Kim G, Kwon M, Cho B, Lee N. Effectiveness of sensory integration therapy in children, focusing on Korean children: A systematic review and meta-analysis. World J Clin Cases. 2024 Mar 6;12(7):1260-1271. doi: 10.12998/wjcc.v12.i7.1260. PMID: 38524513; PMCID: PMC10955541.
Piller A, McHugh Conlin J, Glennon TJ, Andelin L, Auld-Wright K, Teng K, Tarver T. Systematic review of sensory-based interventions for children and youth (2015-2024). Front Pediatr. 2025 Nov 13;13:1720179. doi: 0.3389/fped.2025.1720179. PMID: 41321460; PMCID: PMC12658592.
Wang, H., Chen, Y., Xu, L. et al. Cognitively engaging running enhances inhibitory control and prefrontal activation in children with ADHD: the moderating role of physical self-efficacy. Sci Rep 15, 44313 (2025). https://doi.org/10.1038/s41598-025-30981-8
